Amor em tempos de Guerra (tecnológica)

Sob o argumento de ter participado recentemente no Congresso do Amor, um evento que anualmente decorre na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, recebi um gentil convite para escrever sobre o amor e como as tecnologias vieram mudar as nossas relações.

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Confesso que há em mim ainda um lado de adolescente inconsciente que me levou a aceitar o convite sem avaliar bem a responsabilidade e a tarefa que decidi abraçar.

E isto porque o que me levou a Coimbra foi a ausência de amor. Ou melhor, fui defender que o casamento não é necessário ao amor. Mais valia que se celebrasse um contrato renovado anualmente por iguais períodos. O amor não é para ali chamado.

Mas adiante, o que me traz aqui é uma análise, superficial, de como a tecnologia veio mudar a maneira como nos relacionamos uns com os outros, como nos amamos.

Tudo terá começado com o saudoso IRC. Os Millennials não farão ideia do que estou a falar, mas a geração de 70 certamente se lembrará das salas de chat, do “ddtc?”. Terá sido aqui que as nossas relações começaram a mudar; que as fronteiras se começaram a esbater e que alguém no Porto se podia relacionar com alguém em Faro. Num Portugal ainda muito tradicional e fechado, isto foi certamente uma lufada de ar fresco. Veio então o ICQ, seguido do Messenger e de redes sociais como o Hi5 e o Orkut. O princípio era o mesmo, aproximar pessoas, criar relações. Mas o efeito foi, muitas vezes, perverso: isolou-nos uns dos outros. A tecnologia trouxe também isolamento. E não me refiro ao isolamento da comunicação, porque essa começou então a viver os seus tempos gloriosos. Mas o isolamento que essa mesma facilidade nos trouxe, foi que na comodidade do nosso lar pudéssemos ter esta estranha sensação de estarmos rodeados por muita gente… estando sempre sozinhos. Tornou-nos anti-sociais, homónimos.

Chegou então o Facebook, o rei de todas as redes sociais, o Instagram e o Snapchat. Tornámo-nos ainda mais iconólatras com uma voracidade por tudo aquilo que é imediato. O filme Velocidade Furiosa é uma boa metáfora para as redes sociais: violenta, veloz e a criar heróis e vilões com a rapidez de um fósforo. E onde fica o amor? O Amor que necessita de tempo, de conhecimento, de investimento, de construção, não me parece que tenha na tecnologia terreno fértil para poder evoluir.

A grande conquista da tecnologia, e com isto não podemos esquecer o papel fundamental dos smartphones, foi o de juntar pessoas que, de outra forma, nunca se cruzariam.

O fenómeno mais recente é o Tinder e os seus sucedâneos. Aqui entramos no admirável mundo novo das aplicações de dating. O dedo indicador que percorre o ecrã e que em instantes de segundo decide se o outro lhe interessa ou não com um simples gesto ora para a direita ora para a esquerda. E certamente que daqui a uns meses haverá uma outra app que nos promete facilitar o encontro com a nossa cara-metade, quando me parece que cada vez caminhamos mais para uma sociedade com muitas caras e poucas metades.

Olhando para trás, para os tempos em que do meu PC teclava um tímido “ddtc (de onde teclas?)” vejo o caminho que percorri, que todos percorremos e sorrio. Não encontrei o amor graças à tecnologia mas foi graças a ela que fiz muitos e bons amigos. Não será isso uma forma de amor?

Ruben Obadia

Communication Expert

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