Num mundo digital, repleto de Internet of Things, Robótica, Inteligência Artificial e Smart Cities, as nossas sociedades começaram a refletir sobre o papel do capital humano e procurar criar uma sociedade orientada para a produtividade e trabalho inteligente.

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No entanto, a reflexão iniciada não é consensual e devia envolver todos os stakeholders.

De um lado, os adeptos da automatização e robotização focam no aumento da produtividade e da qualidade, com recurso a máquinas cada vez mais eficientes e na redução de pessoal afeto ao shop-floor das empresas de caráter industrial. As políticas de inovação e de competitividade empresarial têm instrumentos muito eficazes para incentivar as empresas a aumentar a sua competitividade através da adoção de tecnologias avançadas. Ao nível europeu, as políticas relacionadas com a Indústria 4.0[1] tendem a realçar esta vertente.

De outro lado, os adeptos da Inovação no local de trabalho e da Inovação social enfatizam o papel do capital humano na inovação e na resolução de falhas de mercado.

O envolvimento dos colaboradores e restantes stakeholders externos (sindicatos, universidades, políticos) na criação das estratégias de inovação das empresas, designada por Inovação no local de trabalho[2], é também, um dos enfoques da política de inovação da Comissão Europeia. Neste âmbito, trabalha-se na formação e sensibilização dos gestores intermédios e de topo de modo a que os mesmos possam compreender a importância de um diálogo real e concertado, para o bem-estar laboral, para o futuro da empresa e da sociedade em que se insere.

A inovação social[3] é objeto de política europeia na área do Emprego, visando a integração no trabalho de desempregados e grupos desfavorecidos, a melhoria das condições de trabalho e o empreendedorismo social, entre outros. Neste âmbito, a aprendizagem ao longo da vida, as “Pequenas economias” ou a orientação para as comunidades de produtores D.I.Y (Do It Yourself) têm sido as principais abordagens, conjuntamente com o surgimento de novos modelos de negócio que recorrem a partilha de recursos ou de custos (“Sharing Economy”).

O projeto europeu SI-Drive[4],[5] estuda precisamente estas temáticas, incluindo a possibilidade e impacto de escalar as práticas de inovação social e inovação no local de trabalho, com o objetivo de reduzir o desemprego e criar sociedades mais inclusivas e inteligentes.

No workshop organizado pela TNO em fevereiro deste ano, em Leiden, nos Países Baixos, em que tive o prazer de participar, as recomendações para a Comissão Europeia incluíram:

  • Promoção do trabalho sustentável, de qualidade, baseado na igualdade de oportunidades, na partilha de trabalho, empowerment e solidariedade;
  • Reforço da importância dos líderes carismáticos, com visão de médio-longo prazo, e que investem no desenvolvimento dos talentos das suas empresas, aliando as novas tecnologias ao seu capital humano;
  • Importância de promover e maximizar o impacto dos sites de redes sociais, apps e plataformas na divulgação e concretização de iniciativas de inovação social, sendo de particular relevância no caso do empreendedorismo;
  • Importância de aumentar o diálogo entre todos os stakeholders relevantes, permitindo a criação de políticas inclusivas, baseadas na diversidade de opiniões, de diferentes regiões do continente europeu, fomentadas por brokers/catalisadores.

No meu entender, e de acordo com as conclusões do workshop do SI-Drive, é possível conciliar os dois lados, opostos para alguns, dos apoiantes da tecnologia e dos apoiantes do capital humano.

A tecnologia é positiva, aumenta a competitividade e contribui para a sustentabilidade das empresas, das comunidades e dos países. As pessoas devem ter a oportunidade, na empresa, organização ou comunidade em que se inserem, de criar real valor, serem ouvidas, serem motivadas e de tomar decisões sobre a sua área de atuação, dentro dos limites da sua função. Devem ter a oportunidade de ter uma vida saudável, conciliando o trabalho de qualidade com a vida familiar. A solução está na liderança, diriam os adeptos da inovação no local de trabalho.

Na realidade a mudança de paradigma vai muito mais além da liderança de uma organização. Sendo verdade que um excelente líder por mudar uma organização e esta, por sua vez, pode mudar uma comunidade se tiver uma dimensão relevante, a verdadeira mudança é de mentalidade e da forma como encaramos o trabalho e a vida ativa. São necessárias comunidades e políticas ativas para que a reflexão sobre o trabalho do futuro possa ocorrer de forma inclusiva e realista.

Assim, nos novos modelos de negócios e nos novos modelos societários que estamos a começar a construir, não devemos ter medo de sonhar e reinventar o trabalho inteligente, passando a pensar em cocriação de valor entre empresas e a sociedade/comunidades em que estas se inserem. O futuro está nas nossas mãos para o construir, como sempre foi!

Irina Saur-Amaral

Professora Auxiliar na Universidade Europeia, Chief Strategy Officer & Partner na Strategy360 e integra o Advisory Board da rede EUWIN – Comissão Europeia

 

[1] Forbes (2016) What Everyone Must Know About Industry 4.0, https://www.forbes.com/sites/bernardmarr/2016/06/20/what-everyone-must-know-about-industry-4-0/#31ec909d795f, lido em 9 de abril de 2017.

[2] Comissão Europeia (2017) Workplace Innovation, https://ec.europa.eu/growth/industry/innovation/policy/workplace_pt, lido em 9 de abril de 2017.

[3] Comissão Europeia (2017) EU Programme for Employment and Social Innovation (EaSI), http://ec.europa.eu/social/main.jsp?catId=1081, lido em 9 de abril de 2017.

[4] SI-Drive (2017) https://www.si-drive.eu, lido em 9 de abril de 2017.

[5] Comissão Europeia (2016) European Policy Brief: Social Innovation in Employment. 6p.

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