Cinema: O terror conquista a China e a sátira de vime seduz a crítica

O panorama cinematográfico global apresenta-se dinâmico neste início de 2026, com o mercado chinês a demonstrar a sua habitual força através de novos lançamentos de género, enquanto o cinema de autor ocidental nos traz fábulas inusitadas sobre a condição humana.

“Return to Silent Hill” domina as bilheteiras chinesas

No gigante asiático, o terror assumiu o comando das operações. A nova aposta da Davis Films, “Return to Silent Hill”, estreou-se diretamente no primeiro lugar da tabela de bilheteira, arrecadando 66,1 milhões de RMB (aproximadamente 9,3 milhões de dólares) durante o fim de semana de 23 a 25 de janeiro, segundo dados da Artisan Gateway. Este desempenho sólido contribui para um total global acumulado de 19,3 milhões de dólares, colocando a fita na quinta posição das mais vistas a nível mundial, de acordo com a Comscore.

Logo atrás, a comédia de ação “Busted Water Pipes”, da Taopiaopiao, abriu com receitas de 3,9 milhões de dólares. Realizado por Zhou Difei, o filme narra a história de Yu Dahai (interpretado por Eddie Peng) e da sua equipa policial. Com um registo criminal imaculado na sua área, e consequente falta de trabalho, os agentes começam a fabricar casos para justificar a sua atividade. A ironia instala-se quando o rebentamento de um cano na esquadra os leva a tropeçar numa operação real: um grupo de ladrões de túmulos disfarçados de canalizadores.

A resistência dos sucessos internacionais

As grandes produções de Hollywood continuam a mostrar fôlego. “Zootrópolis 2” (Zootopia 2), da Disney, desceu para a terceira posição no seu nono fim de semana, somando ainda assim 3,7 milhões de dólares. A sequela de animação é um verdadeiro fenómeno, acumulando já 621 milhões de dólares na China e consolidando-se como uma das importações mais rentáveis da temporada. A fechar o lote dos cinco primeiros, encontra-se “Avatar: Fire and Ash”, da Disney e 20th Century Studios, que acrescentou 2,6 milhões à sua conta, totalizando agora 157,9 milhões de dólares no país.

Pelo meio, o thriller criminal “The Fire Raven”, da Maoyan Movie, ocupou o quarto lugar. Realizado por Sam Quah, o filme adicionou 2,9 milhões de dólares ao seu total de 57,2 milhões, cativando o público com uma trama sobre a reabertura de um caso de homicídio antigo que destapa uma rede de corrupção.

No cômputo geral, a bilheteira do fim de semana atingiu os 29,5 milhões de dólares. O total anual da China em 2026 situa-se nos 244,8 milhões, apresentando uma ligeira quebra de 1% face ao mesmo período de 2025. Enquanto o mercado aguarda os grandes lançamentos do Ano Novo Lunar, a próxima semana trará uma novidade nostálgica: a obra-prima de 1980 de Stanley Kubrick, “The Shining”, chegará pela primeira vez a mais de 750 ecrãs IMAX em toda a China.

“Wicker”: Uma fábula mordaz sobre a solidão

Longe dos números vertiginosos da Ásia, a atenção crítica vira-se para “Wicker”, uma adaptação cinematográfica do conto “The Wicker Husband” de Ursula Wills-Jones. O filme apresenta-se como uma proposta perfeita para quem alguma vez se sentiu tentado a casar com o seu chatbot de inteligência artificial, embrulhada numa sátira medieval deliciosamente grosseira.

Olivia Colman protagoniza esta narrativa como uma pescadora desagradável numa vila medieval pouco iluminada. Descrita como “feia” e de aroma duvidoso, a protagonista decide contornar as convenções sociais e encomenda um parceiro ao cesteiro local. A premissa poderia sugerir um “Pinóquio” para adultos, mas aqui a criação de madeira não vê o nariz crescer; pelo contrário, este marido ideal é incapaz de mentir. Ele sussurra frases como “Fui feito para estar contigo” ou “És a única razão pela qual vivo e respiro” — declarações tecnicamente verdadeiras, mas que soam como o romantismo supremo para uma mulher desfavorecida pela sorte e pela genética.

Sátira social e irreverência

Os realizadores Eleanor Wilson e Alex Huston Fischer, numa evolução notável desde o seu trabalho em “Save Yourselves!”, utilizam o tempo e lugar indefinidos da história para ridicularizar a superstição e a instituição do casamento. Há um prazer evidente em amplificar a falta de educação dos habitantes da vila — com exceção do mestre cesteiro, interpretado por Peter Dinklage, que mantém a dignidade possível para um artesão abertamente gay numa terra onde as necessidades fisiológicas são feitas em público.

O tom é irreverente, evocando por vezes o tratamento dado aos camponeses em “Monty Python e o Cálice Sagrado”. Os cineastas respeitam o material de origem, mas apimentam-no com detalhes desrespeitosos, como os rituais de casamento bizarros que envolvem coleiras de cobre e cenouras estrategicamente colocadas. Colman, sempre aventureira, despe-se de vaidades para encarnar esta pária da aldeia que tresanda a peixe, uma mulher que, após ganhar acidentalmente um jogo sobre quem seria a próxima a casar, decide comprar o seu destino como quem encomenda uma boneca em tamanho real.

Onde o filme realmente ganha profundidade é nos momentos privados entre a pescadora e o seu marido de vime. Alexander Skarsgård, reconhecível sob a estrutura de salgueiro elegantemente entrelaçada, dá corpo a este companheiro que aguarda no altar com um fato emprestado pelos vizinhos. No seu barraco degradado, a protagonista experiencia, pela primeira vez e com entusiasmo, a atenção de um amante, indiferente ao facto de ele ser feito de madeira. Apesar da banda sonora de Anna Meredith se revelar por vezes intrusiva, sobrepondo-se aos monólogos shakespearianos de Dinklage, “Wicker” triunfa como uma exploração singular do desejo e da aceitação.