Matérias-primas em queda livre: A “tempestade perfeita” de Warsh e o aperto das margens

Os mercados de matérias-primas iniciaram a semana com perdas expressivas, lideradas por um colapso no ouro, na prata, no petróleo e nos metais industriais. A escolha de Kevin Warsh por Donald Trump para suceder a Jerome Powell na presidência da Reserva Federal (Fed) desencadeou uma venda generalizada em ativos de risco, enviando os metais preciosos para uma espiral negativa pela segunda sessão consecutiva.

O ouro chegou a deslizar 5% na segunda-feira, atingindo mínimos de mais de duas semanas, antes de recuperar ligeiramente para negociar com uma queda de 1,8%, situando-se nos 4.777 dólares por onça. Este movimento surge na ressaca de uma sexta-feira negra, onde o metal amarelo sofreu a sua queda diária mais acentuada desde 1983, perdendo quase 10% e caindo abaixo da barreira dos 5.000 dólares. A prata, por sua vez, continuou sob forte pressão, caindo mais de 12% durante a sessão antes de estabilizar nos 83,4 dólares, ampliando o “crash” histórico de sexta-feira, dia em que afundou 30% — o pior registo diário desde março de 1980.

O Efeito Warsh e a Fortaleza do Dólar

A reação violenta dos investidores reflete uma reavaliação súbita da política monetária norte-americana. Vivek Dhar, estratega de matérias-primas no Commonwealth Bank of Australia (CBA), observa que a venda simultânea de metais preciosos e ações norte-americanas sugere que o mercado vê Warsh como um “falcão” (hawkish). Uma liderança mais agressiva na Fed sinaliza que as taxas de juro poderão permanecer elevadas por mais tempo, o que invariavelmente fortalece o dólar e aumenta o custo de oportunidade de deter ativos que não geram juros, como o ouro e a prata.

Esta dinâmica trouxe de volta o chamado trade “Buy America”. José Torres, economista sénior da Interactive Brokers, nota que a aposta na independência dos ativos, que tinha impulsionado o ouro e a prata para recordes estratosféricos de 5.600 e 122 dólares respetivamente na passada quinta-feira, está agora a desfazer-se. O índice do dólar, que mede a força da moeda norte-americana face a um cabaz de divisas, valorizou cerca de 0,8% desde quinta-feira, exercendo pressão adicional sobre todas as commodities cotadas na moeda verde.

Aperto nas Margens e Pânico Comparável a 2008

Para além da política monetária, fatores técnicos exacerbaram a liquidação. O CME Group aumentou os requisitos de margem para os contratos de futuros de metais, com efeitos a partir do fecho de mercado de segunda-feira. As margens nos futuros de ouro COMEX subiram de 6% para 8%, enquanto nos contratos de prata o aumento foi de 11% para 15%. Este tipo de medida é geralmente negativo para os contratos afetados, pois o maior desembolso de capital tende a arrefecer a participação especulativa, reduzir a liquidez e forçar os traders a fechar posições abruptamente.

Tony Sycamore, analista de mercado da IG, descreveu a escala desta liquidação como algo não visto desde os “dias sombrios” da crise financeira global de 2008. Sycamore citou o “despejo” de posições alavancadas, cascatas de ordens de stop-loss e vendas de pânico como reminiscências desses tempos caóticos. As bolsas asiáticas seguiram o exemplo de Wall Street, mergulhando no vermelho num início de semana nervoso, repleto de reuniões de bancos centrais e divulgações de resultados empresariais.

Geopolítica e Metais Industriais

No setor energético, os preços também cederam. O petróleo caiu quase 5%, afastando-se dos máximos de vários meses, impulsionado por sinais de desanuviamento nas tensões entre os EUA e o Irão. Comentários de fim de semana de Donald Trump, afirmando que o Irão estava a “falar seriamente” com Washington, juntamente com relatórios de que as forças navais da Guarda Revolucionária iraniana não planeiam exercícios com fogo real no Estreito de Ormuz, aliviaram os receios de um conflito iminente.

Paralelamente, os metais industriais enfrentam os seus próprios ventos contrários. O cobre, negociado na Bolsa de Metais de Londres, caiu 3%, e o minério de ferro recuou devido a preocupações com inventários elevados e uma procura contida, à medida que a China — o maior comprador mundial — se prepara para a pausa do Ano Novo Lunar.

Correção ou Fim do Ciclo?

Apesar da brutalidade da queda, alguns analistas mantêm a serenidade quanto ao longo prazo. Christopher Forbes, da CMC Markets, argumenta que o recuo acentuado do ouro reflete uma “correção clássica” após uma valorização extraordinária, e não uma rutura na tese altista de longo prazo. “A realização de lucros, um dólar mais firme e novas manchetes geopolíticas de Washington retiraram a ‘espuma’ de um mercado sobrelotado”, afirmou Forbes.

Ainda assim, a volatilidade deverá persistir no curto prazo enquanto os mercados aguardam maior clareza sobre a direção política de Warsh. Contudo, vale a pena notar que, mesmo após estas quedas, os preços da prata continuam a subir cerca de 16% desde o início do ano, e o ouro mantém uma valorização de aproximadamente 8%. Vivek Dhar, do CBA, mantém a sua previsão de preço para o ouro nos 6.000 dólares para o quarto trimestre, sugerindo que uma nova fraqueza do dólar ou a confirmação de um Warsh mais moderado poderão trazer os compradores de volta ao mercado.