Sabemos que o mundo do desporto, apesar de depender da performance física de um jogador ou atleta, está cada vez mais interligado com inovações tecnológicas, biotecnológicas, médicas, entre muitas outras.

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As novas possibilidades que se apresentam na e para a prática das diferentes modalidades desportivas são inimagináveis e a otimização de resultados desportivos é, em última instância, o objetivo mais procurado.

Como organização focada na inovação nas áreas de atividade física, relacionadas com o desporto, lazer e saúde, a EPSI – European Platform for Sport Innovation (Plataforma Europeia para a Inovação Desportiva), procura estabelecer um ambiente mais favorável à inovação no mercado desportivo da União Europeia (UE) para despertar a criação de empresas promotoras de tecnologias inovadoras.

Na tentativa de definir uma efetiva estratégia de investigação e inovação no desporto na Europa, a EPSI apresentou um guia de ações futuras para o setor desportivo até 2021, especialmente no âmbito do Programa-Quadro H2020. O estudo resultou de uma forte cooperação e consulta entre os membros da organização e baseou-se noutras publicações, das quais se destaca o “Building a future of European sports innovation” (Construir o Futuro da Inovação Europeia no Desporto) – um roteiro da inovação resultante do Projeto Europeu Innosport EU.

Ao reconhecer que há cerca de 7,3 milhões de empregos ligados ao desporto, o que equivale a 3,5% do total de emprego da UE, verifica-se que o desporto é um setor dinâmico e de rápido crescimento.

Pelo seu impacto – na saúde, no bem-estar, na segurança, em ações ambientais e na eficiência energética – percebemos que a promoção de novos produtos e serviços ligados à prática desportiva podem ter outros efeitos significativos. Entre eles: melhorar e manter a saúde dos mais idosos, reduzir as consequências de um estilo de vida sedentário (em particular a obesidade nas crianças), melhorar a formação nos desportos de elite, encorajar a inclusão social e proporcionar mais diversão sobre o esforço físico realizado.  

As inovações desportivas como resposta a vários problemas de saúde

Efetivamente, a prática desportiva contribui para diminuir o aparecimento das chamadas “doenças silenciosas”: doenças cardiovasculares, diabetes e cancro, bem como os fatores de risco associados (aumento de peso, pressão arterial elevada e açúcar a mais no sangue).

Daí que a inatividade física seja considerada o quarto fator de morte, isto é, 6% das mortes em todo o mundo.

Perante este cenário, a Organização Mundial de Saúde (OMS) encorajou os governos e stakeholders europeus a desenvolver e implementar políticas com o intuito de aumentar a prática desportiva entre todos os cidadãos. Neste sentido, será importante que os governos de cada país intervenham em diferentes setores – planeamento urbano, transportes, saúde e desporto.

Além disso, também é de assinalar que a população europeia tem envelhecido muito rapidamente, com melhores condições de saúde e longevidade e, consequentemente, com uma diminuição progressiva da taxa de mortalidade. Situação passível de ser aproveitada por novas empresas com produtos voltados para os mais idosos e que respondam às suas necessidades – desporto de baixa intensidade e com risco de lesão reduzido.

Atendendo ainda que duas em cada três pessoas não fazem por semana 30 minutos de exercício físico, promover estilos de vida saudáveis torna-se relevante. Nos últimos anos assiste-se a um aumento desta tendência salutar, muito alicerçada em novas dietas – veganismo, vegetarianismo, dieta do paleolítico, entre outras – em novas modalidades – zumba e Birkam Yoga – e em novas tecnologias – aplicações para smartphones e tablets que incluem pedómetros, rastreadores de distâncias e do sono, etc…

Contudo, um dos aspetos mais preocupantes de fazer exercício físico está ligado ao risco de ficar lesionado. Seja em desporto amador ou em treino de alta competição, a prevenção é muito importante. É necessário pesquisar sobre como evitar lesões, melhorando a técnica, e descobrir novos materiais, como têxteis e calçado, capazes de evitar ferimentos.

Inovação ao encontro da evolução do mercado desportivo

Outrora considerado mercado de nicho, o setor desportivo começa a adotar uma dimensão global. Os principais drivers desta mudança de paradigma são a crescente participação em atividades desportivas, o aumento da consciência pública sobre saúde e fitness e a emergência do e-commerce.

No entanto, o mercado engloba um grande número de outros setores – como o alimentar e nutricional, passando pelo turístico até ao vestuário desportivo.

Enquanto a produção de um ampla gama de equipamentos desportivos especializados é controlada por um grande número de pequenos fabricantes nos vários países da UE. As grandes marcas e empresas abrangem parte deste negócio e investem de forma agressiva em grandes campanhas de marketing para destacar o seu nome e imagem.

Seguindo esta perspetiva, há dois fatores a ter em conta. Em primeiro, a produção massiva (em grande volume) de artigos de desporto é feita, sobretudo, em países do Extremo Oriente e da Europa Oriental. Em segundo, a emergência de produtos inteligentes e funcionais, ligados às novas tecnologias, são produzidos na Europa e em partes do Extremo Oriente. Com grande atratividade de investimento, esta segunda área tem elevado potencial de crescimento como indústria na Europa, já que a zona da UE oferece condições excelentes para criar este tipo de equipamentos desportivos inovadores.

Pela sua abrangência, o mercado desportivo também pode beneficiar da fertilização cruzada com outros setores e criar novas dinâmicas sociais. Oportunidades de e para outros segmentos podem ser aproveitadas pelo desporto. Recentemente, assistimos a colaborações técnicas e tecnológicas, como por exemplo as plataformas de bike sharing, assim como a movimentos comunitários, como as corridas semanais marcadas em várias cidades de todo o mundo.

Desporto sim, mas sem esquecer a sustentabilidade

A prática desportiva, que muitas vezes decorre ao ar livre, não poderá estar assim desfasada de preocupações ambientais.

Nesse sentido, a sustentabilidade afigura-se como um fator-chave para várias instâncias do setor – organização e produção de eventos, construção de infraestruturas e equipamentos desportivos, e produtos.

A manutenção e melhoria de soluções de poupança energética em complexos desportivos começa a ser uma prática corrente. Em Portugal temos o exemplo da Cidade do Futebol, em Lisboa, e a própria UEFA desenvolveu um programa de sustentabilidade ambiental com a organização Climate Friendly. A venda de bilhetes ecológicos e a construção energeticamente eficiente da sede da UEFA, em Nyon (França), foram alguns dos compromissos assumidos.

Simultaneamente, assistimos a vários lançamentos de produtos desportivos – como sapatilhas e peças de vestuário – cuja produção segue práticas sustentáveis e recorre a materiais recicláveis. Empresas como a Nike, a Puma ou a Adidas fundiram inovação ecologicamente sensível e preocupações ambientais a uma maior performance desportiva.

De destacar que a OMS considerou ainda que ambientes construídos podem influenciar estilos de vida e potenciar o exercício físico. Deste modo, as cidades podem revitalizar certos espaços públicos pensando no desenvolvimento e promoção da prática de desportos.

 Os estádios do futuro

À primeira vista, os estádios do futuro não vão ser muito diferentes dos atuais, no entanto, a tecnologia envolvida vai torná-los em estádios inteligentes, mais seguros, enriquecendo e transformando a experiência dos fãs, dos atletas e dos organizadores. Tendo em conta que durante um evento desportivo poderão existir cerca de 90 mil aparelhos inteligentes ligados, os espetadores virtuais podem ascender aos seis mil milhões.

Todos em linha

Todos os expetadores vão ter um segundo ecrã para assistir ao jogo, talvez conectado via wi-fi a óculos para facilidade e conforto. O ecrã vai reforçar a sua experiência e podem oferecer a opção de mudar a vista, por exemplo, a partir da bancada para o local da ação. Esta aplicação será útil para aqueles que assistem a eventos como uma maratona, em que se sai do estádio.

Rosto na multidão

A segurança será otimizada para os fãs. A tecnologia de reconhecimento facial e as ferramentas de big data serão usadas para fornecer informações sobre as pessoas no estádio em apenas 0,3 segundos.

Realidade (e ação) aumentada

Aponte o smartphone ou o tablet para um atleta e vão ser exibidos vários dados em tempo real no seu ecrã.

Controlo a partir da cloud

Com todos os dados armazenados com segurança na cloud, haverá menos necessidade de infraestruturas físicas caras, tal como as para radiodifusão e centro de operações. O dinheiro economizado pode ser desviado para os atletas, para a experiência do espetador ou investidos noutros serviços sociais ou infraestruturas.

Câmaras em todo o lado

Milhares de lentes irão cobrir dezenas de milhares de ângulos, criando dados que vão permitir aos telespetadores em cada visão múltipla 3D e jogos no evento o que os aproxima dos da experiência ao vivo no estádio.

Facebook rapidamente

As redes sociais serão omnipresentes, as tecnologias mobile e a conversão de voz para texto vão permitir até que os atletas atualizem o seu status enquanto competem.

Ganhar por números

Os treinadores vão passar a reunir-se numa sala com vários ecrãs para avaliarem em tempo real múltiplos dados de desempenho dos atletas.

 Sem imprensa

Com uma grande quantidade de dados disponíveis remotamente, a presença de meios de comunicação no local será muito reduzida. E a presença da imprensa pode ser ainda menor se as empresas como a Narrative Science continuarem a aprimorar o seu produto. Esta empresa norte-americana é pioneira no desenvolvimento de relatórios automatizados de notícias em setores altamente orientados, como o financeiro e o desportivo. Têm ainda jornalistas envolvidos no desenvolvimento de algoritmos sofisticados que podem substituir os repórteres nos jogos olímpicos de 2020.

Sem filas

Nem precisa deixar o seu lugar para ter pipocas o merchandise do evento. Através do smartphone ou tablet pode encomendar e fazer o pagamento imediato. O seu bilhete eletrónico permitirá que um funcionário lhe entregue o pedido diretamente no seu lugar.

Usar dados e tecnologia para mudar o setor

A utilização de dados, de equipamentos tecnológicos e outras inovações acrescentam muito valor para o desporto e respondem a funções importantes.

Uma delas é a performance – é um facto que a melhoria consistente no desempenho atlético da atualidade teve uma grande ajuda da inovação contínua registada em equipamentos, nos treinos, na nutrição e no vestuário desportivo. Ao longo dos anos, o desporto adquiriu um profissionalismo ímpar, levando a uma maior pressão para ganhar. A pressão pelas vitórias incentiva a criação de novas aplicações e tecnologias que poderão ajudar o atleta a alcançar resultados ainda melhores.

De igual modo, o desporto também não pode ser descurado. E níveis elevados de conforto são essenciais em desportos que exigem esforço intenso e prolongado, proteção contra condições climatéricas mais adversas, e pesquisa por inovações técnicas capazes de ditar a diferença entre uma medalha de ouro e de prata.

Há um mercado emergente que está a ampliar o alcance de softwares de gestão adaptados às organizações desportivas. Os programadores exploram o vasto potencial das tecnologias de dados em diversos domínios do desporto. Aquisição e gestão de dados (big data), comunicação, interação online, monitorização de corrida, exibição de resultados, controlo de acessos e outros softwares são algumas das ferramentas utilizadas pelos grandes clubes desportivos.

A moda e o desporto estabeleceram uma relação muito próxima que conjuga estilo, design, funcionalidade, sem esquecer a tecnologia. Este segmento está em rápido crescimento, prova disso é-nos dada pela Adidas Originals. Até 2020, esta secção de moda urbana deve aumentar as suas vendas em 50%.

 Como a tecnologia está a moldar o mercado desportivo?

A resposta a esta pergunta tem várias alíneas.

Primeiramente, temos que falar dos materiais inteligentes, ou seja, materiais com uma ou mais propriedades (por exemplo, mecânica, térmica, ótica ou eletromagnética). Durante a última década, os artigos e equipamentos desportivos têm incorporado alguns destes materiais para atingir determinadas propriedades funcionais. Muitos destes materiais são usados como sensores de baixo custo. Falamos de géis inteligentes, de materiais eletro miméticos, reológicos, termo recetores, fulerenos, magneto restritivos, etc…

A par dos cuidados de saúde e bem-estar, o desporto é um dos setores crescentes para a Internet das Coisas (IoT) orientadas para o consumidor. Segundo as expetativas do mercado, fãs e atletas pedem mais informações a partir dos sensores que medem velocidade, aceleração, direção, equilíbrio, distância, altitude e níveis de tensão. Estes aparelhos podem ser aplicados em múltiplos equipamentos desportivos – raquetes de ténis, tabelas de basquetebol, bastões de basebol, entre outros. O fascinante é que os dados podem ser recolhidos a qualquer momento e o jogador sabe no imediato o que deve fazer para melhorar o seu rendimento e evitar lesões.

Igualmente, a impressão 3d tem vindo a criar novas oportunidades para os produtos desportivos. Esta tecnologia tem-se tornado acessível para o processo de design, prototipagem rápida e otimização da aerodinâmica de produtos desportivos, como wearables, sapatilhas e componentes.

Em linha com os materiais inteligentes, espera-se que as nanotecnologias tenham um grande desenvolvimento no desporto, uma vez que alguns nanomateriais trazem benefícios únicos para a produção de vários equipamentos desportivos (conforme se pode identificar na tabela seguinte).

Concomitantemente, torna-se importante saber de forma aprofundada quais as necessidades reais dos utilizadores destas tecnologias a fim de perceber quais as inovações que podem ou não responder à procura e necessidades particulares do cliente.

 

Fortalecer a inovação, bem como a criação de negócios

Perante o panorama até agora apresentado, a demanda pelo reforço da inovação e capacidade de criar novos negócios no setor desportivo da UE terá que ter um foco claro nas Pequenas e Médias Empresas e na aliança da esfera pública com o privado.

As PME são preponderantes nesta estratégia dado que
podem incentivar inovações no segmento do desporto. Porém a sua aptidão pode ser melhorada através da inovação aberta (open innovation). O networking; as ações de colaboração entre parceiros, concorrentes, universidades e utilizadores; o empreendedorismo corporativo – promovendo ventures, spinoffs e startups empresariais; a gestão proativa da propriedade intelectual com a procura por novos mercados para as tecnologias e I&D são elementos chave para otimizar o processo de inovação aberta.

A agenda proposta pela EPSI divulgou um conjunto delinhas orientadoras que já estão e poderão ser implementas nos anos futuros.

O impacto do desporto

Em conclusão, verificamos que a prática desportiva, em ambiente recreativo ou de competição, tem um impacto significativo em vários domínios da nossa sociedade – da economia à saúde.

Ficou registado que o desporto influencia positivamente a saúde no geral, mas também a mental, o bem-estar emocional e físico e a qualidade de vida de cada um de nós.

Com igual peso, os avanços tecnológicos, muitasvezes derivados de grandes inovações, respondem adequadamente às necessidades do mercado e seguem valores de sustentabilidade.

Além disso, os dados têm contribuído para melhorias significativas no desempenho e conforto dos atletas e agregam valor às grandes organizações desportivas que passam a interagir mais digitalmente com o público, exibindo e acompanhando resultados.

Por fim, soubemos que muitos artigos de desporto são projetados para responder a pedidos personalizados do consumidor, sendo essencial uma cooperação intersetorial benéfica para universidades, centros de investigação, indústrias e organismos desportivos capaz de investir mais na pesquisa e desenvolvimento de novos produtos desportivos.

Espera-se com esta análise, contribuir para que a Europa se transforme, ao longo dos próximos anos, num centro mundial de excelência em inovação desportiva.

// www.epsi.eu

Fonte: Strategic Research and Innovation Agenda – EPSI

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