Recursos qualificados e alinhamento estratégico são as chaves para a transformação digital em Portugal

Os investimentos em digital incidem essencialmente em tecnologias mais consolidadas, com menor aposta em tecnologias com maior potencial disruptivo.

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A  EY acaba de lançar, em parceria com a NovaSBE, um estudo que analisa os níveis de maturidade digital e de confiança das empresas portuguesas em relação ao futuro digital. O estudo, elaborado pelo Observatório de Impacto Digital EY Nova SBE, revela que os empresários reconhecem que os impactos da transformação digital são fortes e imediatos e que é urgente agir. No entanto, e apesar de muitas empresas acreditarem terem iniciado a transformação digital, poucas são as que já o fizeram de forma abrangente.

O Estudo Maturidade Digital das Empresas em Portugal revela que as empresas reconhecem que a transformação digital está a criar oportunidades para a proliferação de novos produtos e serviços e novos modelos de negócio, mas conclui que os investimentos em digital ainda estão a descurar as vertentes de pessoas e organização, a gestão de informação, a estratégia e a liderança – uma realidade que pode criar riscos a médio prazo.

De acordo com Bruno Padinha, Digital Leader da EY Portugal: “É importante incorporar as vantagens da tecnologia digital no negócio atual, mas é mais importante avaliar até que ponto o digital deve levar a repensar o próprio modelo de negócio. Focar os investimentos nos pilares do digital que fazem mais sentido para o negócio é importante, mas descurar a vertente de talento e a estratégia cria riscos a médio prazo. Assim, consideramos que as políticas de recrutamento e desenvolvimento pessoal devem ser repensadas em função das competências futuras. Onde necessário, deve ser avaliado o recurso regular a apoio externo ou mesmo a terceirização de áreas de apoio à transformação digital na empresa”.

O estudo revela que 41% dos inquiridos já iniciou o seu processo de digitalização há mais de 5 anos, com os setores de Media (63%) e Turismo e lazer (60%) a liderarem este pioneirismo. Para muitas empresas o momento em que começaram a investir nesta área parece estar associado a uma avaliação positiva da da sua maturidade digital face à dos seus concorrentes. No entanto, o facto de esta visão otimista ser generalizada na amostra pode indicar desconhecimento da situação real dos concorrentes ou que a comparação está a ser feita essencialmente com outras empresas nacionais, o que não é necessariamente a melhor base de comparação num mundo digital.

A perceção é significativamente diferente entre setores, com as empresas de Media (76%) e Energia (64%) a serem as mais confiantes quanto à sua posição atual de liderança face aos concorrentes e quanto à capacidade de manterem esse avanço no futuro. Já no setor da Saúde, 72% das empresas assumem que estão atrasadas ou a par dos concorrentes, mas 86% estão confiantes em que recuperarão desse atraso.

Já no que respeita ao grau de implementação das diferentes tecnologias associadas à revolução digital, a escolha das empresas portuguesas vai para as redes sociais e marketing digital (mais de 75% das respostas indicam um grau de implementação de 4 ou 5, numa escala de 1 a 5), o cloud computing (65%), big data e analytics (61%) e internet of things (ligeiramente acima de 50%). Este resultado ilustra uma aposta em tecnologias mais maduras ou com maior grau de adoção por terceiros. Daqui parece resultar uma preferência por resultados rápidos ou por acompanhar o que outros vão fazendo, o que limita o potencial de inovações disruptivas. Quando se conjuga este resultado com o facto de a generalidade das empresas querer continua a apostar nas mesmas tecnologias no futuro, ficam dúvidas quanto ao potencial de liderança da generalidade das nossas empresas em matéria de revolução digital. Salienta-se que um número muito pequeno de empresas, significativamente abaixo dos 10% da amostra, indica ter em fase avançada de implementação projetos relacionados com impressão 3D, computação quântica, condução autónoma ou blockchain, por exemplo.

Para Bruno Padinha “no caso da tecnologia de condução autónoma e da sua potencial importância para setores como o turismo, é possível entender que as empresas têm um comportamento reativo enquanto utilizadores de tecnologia. O investimento está planeado, mas  neste momento não há exploração nem definição de modelos para o acomodar. As empresas prescindem de querer liderar e, ao esperar, apostam mais nas suas capacidades de reação e de se adaptarem à medida que as soluções amadurecerem”, conclui o gestor.

Mais de 60% das empresas auscultadas reconhece que não tem na organização as habilitações e os conhecimentos digitais adequados. Esta perspetiva parece colocar em causa parte do otimismo demonstrado quanto à maturidade digital e à capacidade de criar vantagens face à concorrência. Uma das possíveis consequências é um aumento da guerra pelo talento em Portugal, tal como sucede noutros mercados. Por outro lado, este resultado indicia a necessidade de uma atuação mais célere do Estado e das Universidades no sentido de sensibilizar os estudantes para áreas com maior potencial de empregabilidade e de adaptar os curricula em função da nova realidade digital.

Finalmente, a dimensão estratégia e liderança mostra avaliações muito díspares entre setores. As empresas do setor energético apresentam uma visão mais positiva, com a generalidade a avaliar de forma muito positiva o seu nível de desenvolvimento nas vertentes de inovação, liderança de topo, gestão da mudança e estratégia de digitalização, com mais de 70% das respostas acima do ponto médio. A generalidade das empresas faz uma avaliação pouco positiva quanto ao nível de desenvolvimento da sua estratégia de digitalização, com os resultados mais favoráveis a caberem aos setores da Energia e Financeiro, em que respetivamente 27 e 22% das empresas avalia a sua estratégia digital com a pontuação máxima.

A perceção individual dos participantes do estudo, elaborado pelo Observatório de Impacto Digital EY Nova SBE, em relação ao processo de transformação digital, é de que haverá um impacto positivo significativo tanto nas relações entre pessoas, como na organização do trabalho e na função que desempenham. Acredita-se ainda que o horizonte temporal dessas mudanças está muito próximo e que acontecerá nos próximos dois anos.

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